Rascunho de Romance Histórico Urbano

           
O armazém de Benedito ( 1º Capítulo) 



Bebedouro nos anos 20¹

           No amanhecer, o dia parecia ser mais um daqueles de sol, porém quando Jessé estava aguardando o bonde na vila Bebedouro para  ir as proximidades do Jaraguá, o tempo logo mudou, o sol deu lugar as nuvens que anunciavam uma forte chuva. Logo, começou a chover.  A roupa bem passada, toda bem engomada e alinhada no padrão social, que tinha caído adequadamente naquele jovem alto, magro, com óculos fundo e rosto chupado, ficaria toda molhada. Porém, não restava mais nada a fazer.  Passando pelas ruas largas do Jaraguá que até parecia avenida de carnaval, Jessé aproximava-se do prédio, retirava do bolso o endereço anotado por seu tio, verificava se estava no lugar correto. Naquele tempo, Jaraguá era  um agitado armazém comercial. A presença de um projeto de Porto, ou melhor, uma abrigada de embarcações para o transporte sobretudo do açúcar produzido nas Alagoas, era fator de vida urbana e econômica para região do Jaraguá. O lugar era espaço de contatos com gente diversa, havia vilas de moradores e hospedarias. Compradores de outras regiões ficavam instalados nela para comprar produtos produzido nas Alagoas. Jessé iria até o empório de vendas do Senhor Benedito. 

- É , deve ser aqui mesmo.

         Andando, chegou até o empório de Benedito que ficava no final da rua. Ao abrir a alta e larga porta, típica das construções da época, deparou-se com uma moça sentada, provavelmente ela trabalhava no empório. Ficou surpreso, não imaginava encontrar ali uma moça. Esta, antes que ele falasse, o saudou:

- Bom dia, o que deseja ?

               Falando com um sorriso cativante no rosto, Jessé ficou "caidinho", não apenas com o sorriso da moça, mas com toda a beleza presente no olhar dos olhos castanhos, do rosto com belas maçãs, cabelo curto cacheado, pele cremosa e dentro de um vestido de tom ameno que delineava as belas curvas daquele corpo. O vestido parecia ter sido feito apenas para ela, aparentava não  ter mais de 24 anos. Com olhos fintados na moça, ele demorou responder. Mas, enfim, falou:

- Bom dia, sou Jessé. Estou aqui por indicação de Titio Machado.
-Ah sim, Sr. Benedito havia falado que você viria. Pode aguardar um pouco, irei chamá-lo.

             Ele aguardava ansioso a chegada de Benedito e não parava de pensar na moça e disfarçando buscava fotografá-la com o olhar, havia esquecido até que estava ainda molhado. Enfim, aproximava-se dele através de passos curtos e lentos,  um senhor branco, já por volta dos 65 anos, com cavanhaque grisalho, com olhar sério e já calvo.  Vestido de paletó branco, gravata preta e com uma pilha de papéis na mão. Ao se aproximar, disse-o com a voz forte que causava respeito:

- Bom dia, Jessé. Como está Machado ?
- Bom dia, Senhor Benedito. Titio Machado está bem.
- Que bom, Patrício responsável pelos registros de vendas está viajando , seu tio falou que você domina bem a escrita e a matemática, é verdade ?
-  Sim. Eu posso ajudar nisso.
- Aguarde Lucinha lhe mostrar as coisas.

           Jessé foi adotado por seu Tio Machado após sua mãe morrer no parto, e enquanto seu tio estava com Benedito, ele cresceu como ajudante na casa da família dos Florianos em Bebedouro que lhe ensinou a ler e escrever para trabalhar levando algumas correspondências para família.  

           Senhor Benedito tinha o sentimento de dever algum favor para Machado. Este havia trabalhado para ele desde quando Brasil virou republicano , porém havia ficado inútil para o trabalho. Em Jessé havia uma mistura de sentimentos naquele momento. Sabia que estaria ali por um favor de Benedito a seu tio Machado, precisava honrar a indicação de Machado. Enquanto ele pensava, Lucinha, a bela moça, andava em sua direção. Os passos eram nem lento nem acelerado, mas a beleza da moça deslocava Jessé para o tempo desacelerado, onde a beleza fazia dos passos vagarosos. Quando ela chegou, o pediu para acompanhá-la. O empório de Benedito tinha um grande balcão que separava a parte de atendimento a clientela e a parte dos funcionários. Logo após aquele extenso balcão havia duas mesas. Lucinha disse:

- Jessé esta segunda mesa você vai trabalhar fazendo registros de entradas e saídas.
- Ah, ótimo.
- Na gaveta você encontra materiais para seus registros e alguns modelos.
-Irei olhar todos eles, qualquer dúvida, posso lhe perguntar ?
- Sim, sem problema.

         Jessé sentou e ficou bem acomodado. Lucinha parecia naquele dia, ser um mulher muito bem humorada, o jovem se sentiu confortável com Lucinha e o Senhor Benedito, porém não lhe foi apresentado os outros trabalhadores do armazém, assim, ele aguardava. Ele retirou da gaveta alguns papéis para ver alguns exemplos dos registros de Patrício. Foi folheando e lendo para entender os registros. O trabalho era simples, apenas transcrever o que vinha na nota de pedido. Jessé queria alguma pretexto para falar com Lucinha, mas compreendia bem a simplicidade dos registros. Não queria passar por tolo! Jessé era cauteloso, uma espécie de gente analítica que observa mais e fala menos. Talvez, Jessé adotou essa postura por ter crescido em casa alheia, não sabemos ao certo. Até o final do dia no escritório, ele não desejou passar por tolo fazendo pergunta óbvia para Lucinha. Não a incomodou. No final do dia , Senhor Benedito, o chamou:

- Jessé, você vai fazendo esses registros até a volta de Patrício ?
- Sim. Depois que ele voltar eu farei outra atividade, senhor Benedito ?
- Irei ver, mas na safra aqui não falta serviço. Vai ter coisa para você fazer.

       Patrício era filho mais velho de  Benedito e havia viajado, acreditava o pai, para conseguir compradores do açúcar vendido no armazém.

Patrício e a Viagem ( 2º Capítulo ) 


Recife anos 20²

              Patrício era o filho de confiança de Benedito. O pai sempre o creditava atividades que envolvia dinheiro. Patrício fechava as melhores vendas para Benedito. Conseguia compradores de todo o nordeste, levava jeito para vender, se possível vendia até sem mostrar o açúcar, tinha uma jeito para falar com os compradores. Era descontraído, bom humor. Aparentava ser uma alma sem vícios como de um artista. Porém, demostrava já cansaço com a rotina do armazém. Era um daqueles espírito interessado por arte. Viajou a recife desta vez, não para fechar uma venda de açúcar, mas sim para um curso sobre Arte e Filosofia no teatro de Santa Isabel em recife com um professor já muito afamado na região, professor Apolinário. Patrício chegou na sexta pela manhã. Ficara aqueles dias hospedado na casa da tia viúva, Fátima, mãe de Gisele. Fátima era uma daquelas mulheres que frequentava chás elegantes na casa das outras senhoras da região, um espírito altivo, sentia-se a alta sociedade do Recife. Vivia da gordurosa herança deixada por Tio Plínio que era dono de um armazém grande na região. Os filhos Jotinha e Josué não se interessaram por continuar o negócio do pai, algum tempo após a morte do Titio, viajaram para ficar um tempo na Bahia para viver uma vida de boemia sem diminuir a reputação do nome da família em Recife. Aliás, falar em reputação, eles já estavam formados  para manter o nome da família. Deixaram  Fátima e Gisele em recife. Ao chegar na casa de Tia Fátima, uma senhora casa, Patrício sabia que iria ser recebido com aquela formalidade desnecessária de etiqueta. Fátima estaria dois passos da porta, aguardando acompanhada de dois empregados, dona Maria e o seu Zé. Para Fátima, fazê-lo bem recebido seria importante para quando ela os visitasse nas Alagoas. Coisa que ela fazia com muita frequência. Ao chegar, foi recebido:

- Olá, sobrinho Patrício, como você esta?
- Oi, tia Fátima, estou bem. E a senhora ?
- Estou bem, graças a Deus. Vamos entrando. Deixe que seu Zé Maria carregue sua mala.
- Tá bem.
- O que lhe traz em Recife ? Mais vendas ?
- Sim, felizmente.

Patrício precisava dizer que sim, do contrário, Fátima quando fosse nas Alagoas,acabaria contando.

- Uma pena que meus filhos não se interessaram pelo armazém. Poderia render bons lucros.

         Fátima era interessada em negócios, sabia fazer boas aplicações da herança, naqueles dias fazia apenas investimentos, não era proprietária de nenhum comércio. Não continuou o armazém porque seria pecado para sua imagem cuidar de um negócio sem a presença dos filhos ou um marido. Então, ela ficava satisfeita em fazer financiamento de lojas de tecidos e ter um ótimo retorno de juros. Os filhos, por outro lado, dados ao desperdício. Se não fora a mãe, disciplinada nas finanças, haviam perdido tudo.

        Patrício mais tarde queria acompanhar a prima Gisele nas saídas nos bailes da noite, estava nos auge dos quase 30 anos, mas parecia não querer encontrar-se no amor, as aventuras e paixões das viagens corriqueiras pareciam suficiente para saciar os anseios dele no amor. Gisele acabara de chegar em casa.

- Patrício, meu primo. Que bom está aqui !

Falava com aquele tom de riso de quem já sabia sobre o que interessaria seu primo.

-  Oi, Gisele, minha prima. Bom está aqui mesmo. O que temos para hoje ?
-  Tem um baile na Santa Inês.
-  Ótimo. Irei descansar para está bem disposto. E você, ainda sem encontrar o amor ?
- Ahhhh, olha quem fala !? Eu não vou encontrar, serei encontrada.
-  Sempre convencida.
- Para não perder o costume.

          Claro, a conversa foi sem a presença da viúva da casa. Gisele era comedida com a mãe, não escondia tudo, mas também não revelava. Patrício foi para o seus aposentos na casa e repousou até o jantar servido na casa da tia. Está bem disposto para o baile era essencial para revelar a jovialidade de quem já chegava na casa dos 30.  Chegada a hora do jantar, Patrício e Gisele já estavam prontos para participar do jantar e depois cair no baile. Acostumado a ir na casa e já conhecido dos empregados da mansão, Patrício sempre jogava com alguma ideia de seu Zé. Seu Zé era homem iletrado nos livros, porém letrado na vida. Conhecia as malícias, teve a experiência de trabalhar em bailes e conhecia várias histórias ou lorotas, não sei.

- Seu Zé, como estou ? Será que consigo algo hoje?
- Essa beca está para o gasto...o sinhô Patrício sabe que no baile todo mundo é boa pinta.

Falava o seu zé com aquela voz pausada arrastada, olhando de lado para Patrício.

- Sim, e ?    Respondeu Patrício.

-  Boa pinta todo mundo vai tá. Faça o jogo do charme.
- Como assim o jogo do charme ? Perguntou com risos, Patrício.
-   Pesque na alma e os zoios é a entrada.
-  Sabe seu Zé que um Filósofo já disse isso.
- Filó, o que ? Num preciso, sou homi vivo.
-  Tá bem, seu zé. Eu vou olhar nos olhos.

         Seu Zé sentia-se um pouco mais elevado tendo Patrício lhe dando ouvidos. Era uma coisa esquisita, por alguns momentos, o Seu Zé esquecia o lugar dele na casa, serviçal. Ousava até contar até sua lorotas ou histórias, não sei. Gisele sempre fazia queixa com Patrício dizendo que ele dava muita liberdade para o serviçal da casa.

- Vamos Patrício.

Com sobrancelhas travadas, falava incomodada com a atenção que Patrício estava dando para seu Zé.

- Vamos.

        Gisele disputava atenção até com a sombra dela, quanto mais com o serviçal. Precisa queria está sempre debaixo das luzes, sendo vista. Sedenta incessante pelos olhares. Descartes dizia:
"Penso, Logo existo", Gisele, porém, vivia na condição do sou vista, logo existo. 

- Não sei porque você dá ouvidos ao que diz o serviçal.
- Ele é vivido, Gisele. Cheio de andanças na vida.
- Ah, tá bom. Vamos, o carro está a espera.

Ao chegar no baile, o salão estava repleto de luzes que embelezavam o salão decorado com . A música estava ambiente. Patrício caminhava em passos elegantes ao lado de Gisele que com toda formosura acrescentada de vestido vermelho, chamava atenção. Gisele era alta, com cabelos lisos longos, com um manequim  em excesso mas sem perder as curvas.


Referências: 

1- Imagem Disponível: https://www.historiadealagoas.com.br/bebedouro-dos-nossos-tempos.html  em 18/06/2020.

2- por Leonardo Antônio Dantas Silva, disponível https://jornalggn.com.br/cidades/o-recife-dos-anos-de-1920/   em 18/06/2020.

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